Luxo sustentável

Paradoxo ou um futuro próximo?

Por Inêz Gularte

“A sustentabilidade será o luxo do futuro”. Para Francesco Morace, sociólogo e jornalista à frente do Future Concept Lab, um instituto de pesquisa de tendências de consumo e consultoria estratégica, com sede em Milão, a qualidade do tempo e do espaço, a relação com o meio ambiente e a busca da paz interior serão os novos paradigmas que a humanidade irá vivenciar. Ele alerta que o fenômeno varia de acordo com a cultura de cada país. “Na Europa e nos Estados Unidos, a ostentação, o materialismo e o consumismo estão em crise e a sustentabilidade já se tornou um novo desafio. No Brasil, na China, Índia e, em outros países de economia emergente, o luxo ainda está vinculado ao consumismo, mas isso deve mudar logo”.

Morace acredita que as linhas ecofriendly estarão em constante evolução nos próximos anos. Mas como resolver a questão do uso de peles e de outras matérias-primas oriundas do abate de animais? Para ele, estas coleções serão gradativamente substituídas por novas compostas por produtos ambientalmente sustentáveis. No desfile de inverno 2011 da Chanel, já foi possível perceber este movimento, com a marca apresentando uma coleção em que a pele e os pelos de animais foram substituídos por matérias-primas tecnológicas, com textura e aparência muito similares aos materiais que lhe inspiraram.

Para André D’Angelo, professor e autor do livro “Precisar não Precisa: Um Olhar sobre o Consumo de Luxo no Brasil”, é possível aliar luxo e sustentabilidade. “Uma das características dos produtos de luxo é a qualidade – em termos de matéria-prima, tecnologia e/ou processo de fabricação. Em qualquer um desses elementos, é possível ser mais sustentável, do ponto de vista ambiental, sem perder de vista a qualidade final”. A grande questão é, segundo ele, saber se a sustentabilidade é um compromisso real da empresa, ou apenas um apelo promocional. “No momento, estamos em um estágio no qual o apelo supera o compromisso – inclusive porque é difícil para o cliente conhecer a fundo a empresa, a ponto de basear sua decisão de compra em critérios de responsabilidade socioambiental. Embora seja possível acreditar em uma evolução do estágio atual para outro, no qual o compromisso prepondere, acredito que ele só será majoritário, no momento em que o Estado intervir de alguma forma, com sanções de todos os tipos”.

Álvaro Arthur de Castro, sociólogo, especialista no planejamento de negócios de luxo e diretor da Oficina dos Sentidos, tem ressalvas sobre a viabilidade prática do luxo sustentável. “Tenho dúvidas se a sustentabilidade é algo exequível, ou acabará como mais uma tendência da autoajuda corporativa, tornada premissa de consumo para legitimar novos gastos e, por conseguinte, mais consumo. Convém aguardarmos para descobri-lo”. Segundo o sociólogo, já está mais que claro que o ritmo de nossas economias é o grande responsável pelo esgotamento dos recursos naturais e pela deterioração do meio-ambiente. “Em termos simples, a própria sociedade de consumo é insustentável. Mantida à base de fontes de energias esgotáveis, ela se autodestruirá. De outro modo, teremos de nos adequar a condições de vida bem mais modestas do que a mais radical idéia de sustentabilidade pode apontar, algo próximo de um certo primitivismo. Por outro lado, o próprio senso comum trata como luxo o que muitas vezes não passa de opulência. De certo que luxo e opulência são irmãos. Logo, como algo opulento poderia ser considerado sustentável?”

Para Luz Vaalor, presidente do Valor Luxury Lab – Consultoria em Negócios de Luxo, Moda e Desenvolvimento, luxo e sustentabilidade não são ideias opostas e muitas marcas já perceberam isso. “Por começar no topo da pirâmide social, o luxo tem maior responsabilidade de liderar esse movimento, que é inevitável e inadiável. Além disso, os consumidores de luxo preferem marcas que preconizem e pratiquem os valores morais e de responsabilidade social e ambiental nas empresas”. Ela ressalta que fazer um produto sustentável não é apenas usar uma matéria-prima orgânica ou reciclada. “A sustentabilidade deve ser aplicada em toda a cadeia de produção e no ciclo de vida dos produtos. Questões como durabilidade, preservação para matérias-primas escassas e respeito à segurança do trabalho são alguns dos itens que integram a sustentabilidade”.

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