As grandes griffes de luxo demandam mão de obra especializada escassa no Brasil

Alguém poderia imaginar que certas marcas de luxo têm como norma propiciar a mesma sensação térmica aos clientes em todas as lojas ao redor do mundo? Esse e outros detalhes, que escapam à maioria dos consumidores, fazem parte do complicado processo de chegada das grandes grifes ao Brasil. Em algumas lojas, o custo do metro quadrado na decoração de interiores pode chegar a US$ 25 mil. O preço inclui minúcias de marcenaria, metais com banho de ouro rosado e até camurças escovadas sempre no mesmo sentido. “Cada marca tem um padrão internacional e, com base nele, nós fazemos todo o interior: das paredes aos sofás. Há abertura para as adaptações locais, mas todos os detalhes são extremamente controlados”, explica a arquiteta Patricia Martinez, que tem clientes como Gucci, Bottega Veneta e Tiffany. A “cor local” da Tiffany que abriu em Brasília, por exemplo, foi dada por lustres e arandelas arrematados no leilão das peças do antigo hotel Cad’oro, de São Paulo.

O contra-senso é que essas grandes grifes, que chegam dispostas a utilizar produção nacional no desenvolvimento das lojas, não encontram prestadores de serviço nem preços à altura. Há dificuldades das mais simples: de marceneiros capacitados a construtoras com funcionários que falem inglês razoavelmente para participar de videoconferências internacionais. Ao discorrer sobre a situação, a arquiteta faz uma analogia sobre a maneira como a conjuntura econômica do país se reflete no dia a dia do escritório.

“A gente tem um banquete servido na mesa e não sabe comer. Pela falta de talheres, às vezes comemos com as mãos”, lamenta a arquiteta.

Para algumas dessas marcas, Patricia Martinez, de 35 anos, já está na terceira temporada de lojas. Mas é reservada quanto às idiossincrasias de cada uma delas, pois, até por razões contratuais, não pode falar de projetos ainda não concluídos. O que ela diz, com muita clareza, é que o famoso custo Brasil está muito alto, razão pela qual algumas marcas são obrigadas a recorrer à importação de quase tudo para se estabelecer nos shoppings locais. “Conseguimos desenvolver produtos com a mesma qualidade dos outros países, mas por um preço muito superior. Então, tivemos que dar um passo atrás na ideia de fazer quase tudo aqui. Temos apenas três marcenarias de altíssimo padrão para atender o mercado de luxo: em Porto Alegre (RS), Itatiba (SP) e Curitiba (PR) – e elas não conseguem dar conta da demanda. Estou recusando clientes por falta de fornecedores e mão de obra.” Ela cita o caso recente de uma dessas marcenarias, que não aceitou a encomenda para fazer a nova loja da Tiffany por excesso de trabalhos já contratados. Por outro lado, a crise europeia e a ociosidade de empresas na Itália aparecem como alternativa ideal para compensar as lacunas nacionais. Carpetes, sofás e toda a iluminação embutida são importados.

O primeiro cliente de luxo do escritório de Patricia foi a Gucci, quando abriu sua loja no shopping Iguatemi, em São Paulo. A marca, que pertence ao grupo PPR, do magnata francês François-Henri Pinault, acabou por ser seu cartão de visita na hora em que a Bottega Veneta, outra grife do mesmo conglomerado, aportou aqui por terras brasileiras. E assim foi. “Se você é bem-sucedido nesse mercado tem as portas abertas”, diz ela, que nos últimos anos mudou o foco do escritório, antes basicamente residencial, para atender o vertiginoso crescimento do segmento de luxo. Entre seus quinze funcionários agora há uma equipe voltada só para os projetos de luxo. Um de seus novos clientes é a grife italiana Tumi, de mochilas, malas e acessórios para viagem, que chega agora e abrirá em breve no shopping Iguatemi, de São Paulo.

Por conta desses trabalhos, as relações internacionais do escritório se ampliaram e Patricia passou a fazer projetos mundo afora. Hoje, a ex-aluna da Universidade Mackenzie desenha apartamentos em Nova York, residências em Estocolmo, Las Vegas, Miami, Panamá e Madri. Mas não lhe pergunte o nome dos empresários que frequentam sua prancheta

de Maria da Paz Trefaut Valor Ecônomico 13-02-2012